Como uma metade chama pela outra, também a minha rabujice recente empurrava os meus filhos para a ideia de um urgente internamento.
E internaram-me. E assim fiquei completo, geronte e tonto, metade que era daquilo que eles queriam.
O pior foi quando cheguei lá, nesse dia.
Entrando, logo fui saudado por uma dezena de placas de plástico com sorrisos feitos à mão prontos a sorrir. Os delas, sobretudo. E também por outros sorrisos mais amarelos, os deles – certamente adivinhando tempestades.
E imaginassem eles o calibre de quem agora chegava, talvez até aquele amarelão virasse fel, bala, míssil ou bombinha de neutrões…
- Jonas…, still alive! – anunciei-me, chegando chegante, hirto que nem um pau.
Fecharam os sorrisos, encravaram as matracas e encolheram-se nos sofás, acagaçados com tanta basófia.
Porém, uma das porcelanas continuou sorrindo, provocante, tipo ‘olha para este maduro, a armar-se…!
Sorri-lhe, falso compincha, D. Juan made in Cordoaria a piscar-lhe os olhos, ambos, vertiginosos, Pamplinas maquinista…
(Ah!, cómo suena a pasado la visión del futuro!)
(Ah!, cómo suena a pasado la visión del futuro!)
Ao passar por ela sussurrei-lhe um imperativo e categórico ‘querida, hoje jantamos juntos’.
Ela, nada, apenas brasa, esplendindo, pouco esplêndida em seus quase oitenta.
Recolhi ao quarto que me haviam destinado sem esperar qualquer resposta.
Minutos mais tarde, irrompe quarto adentro e em pânico a gerontófila criada:
- Qué-que-vocemecê disse à senhora condessa… que a fez mijar-se toda de uma maneira que até nunca antes?
Nada de especial, para além do convite para jantar – esclareci
- Pois olhe, logo vai ter de dar uma satisfação ao senhor conde, que a vem visitar para o chá das cinco – avisou a gerontófila, em tom ameaçador
Deixe o conde comigo. – sosseguei-a
E já a hora do chá, e o conde, esticadíssimo em seu lencinho de seda ao pescoço, engomado dos pés à cabeça, lacas e outros milagrosos produtos para o disfarçar do caruncho e ainda mais o pormenor da bengala cabo de prata, todo em jeito anglófilo, o sacana.
Um verdadeiro fucken bastard, por assim dizer. Completo.
- Você é que é o Jonas Still Alive?
Nada disso, sou apenas o Jonas; o still alive só se vai manifestar mais lá para a noitinha; e tu quem és?
Boquiabriu-se com tal republicanismo e plebite e logo avançou cheio de brilhos e garbos, nobreza ofendida em seus brazões:
- Eu sou o Conde de Defesas, Defesas de Cima.
Pois bem as pode defender agora que não lhe vai adiantar nada! – retorqui-lhe já pensando nos prováveis filmes com a sua condessa protagonizando comigo.
Aí o conde, acusando o sarcasmo, bateu violentamente com a bengala no soalho e virou-me as costas em sinal de desprezo, visivelmente indignado….
Diga-se agora – en passant – e atribuindo algum ainda vivo instinto à nobre criatura, que percebeu nessa minha resposta uma mais que certa possibilidade factual de a sua condessa se disponibilizar para este plebeu, muito mais novo que ele, muito menos feio, muito menos careca, muito menos entorpecido e, pior que tudo, muito mais sambista.
E assim tudo se veio a passar, de facto e imediatamente, consoante os palpites do conde.
A condessa era uma devassa, e eu gostava disso;
A condessa gostava da brincadeira, e eu também…
E de brincadeira em brincadeira, o Conde tomou conhecimento de tudo e com a mais nobre das delicadezas foi-me rogando que a convencesse a dispensá-lo das diárias visitas para o tea time. Porque – blablablá… «você percebe, não é?» - também ele tinha uma namorada, mui antiga e estimada e ciumenta e sempre carente da presença dele...
Eu, claro, percebi tudo, sobretudo a carência que alguém poderia sentir de um escombro daqueles...
Acordo de cavalheiros selado, fiquei ainda com direito a uma contribuição mensal de quinhentos Euritos, para os vícios do tabaco e do absinto…
E assim decorriam os dias, na gerontança:
Dias ao sol no jardim e na piscina, jantares românticos à luz de velas com a condessa.
Depois, as célebres noitadas de absinto com a bela, adormecida, sereníssima em seu invariável sorriso dentro de um copo de água…
E foi numa destas noites, encharcado em absinto e agraciado com uma sistemática simpatia vinda lá da mesinha de cabeceira, que eu escrevi a história que agora vos vou contar:
…
Uma metade, um dia, exausta de tanto chamar a outra...
5 comentários:
Condadito, meti-te no samba, com o Pamplinas, o Maquinista.
Lembras-te?
;)
Rabujice (ni idea)
y... la historia va a seguir? o está exausta a metade?
Ah!, cómo suena a pasado la visión del futuro!
Ella:
Quando (eventualmente) passares os dias 'rompiendo las pelotas' dos outros, por tudo e por nada, será a tua fase RABUJENTA. Logo a RABUJICE.
;)
A sambar, pois... Aínda que pensei en Marx, en Groucho e non no Pamplinas, lendo isto
Ay! que me he perdido. Menos rabujenloquesea, todo lo demás mencanta.
Enviar um comentário