Eram as tantas da noite, mas tudo se passou como se fosse manhã cedo. Ela, animal; eu, pior ainda, besta…
Bestialidade pura contra a intelectualóide animalice em guerras de alecrim e manjerona, de madrugada.
E porque coisa e tal - já nem lembro os argumentos - eu era merda e ela a virtude; eu era um não-és-nada, ela já a concomitante que era-tudo e ainda alguma coisa mais; tudo factos inacreditáveis, indemonstráveis e improváveis, já que eu sequer a quisera cheirar nunca...
Digamos que as coisas ali expostas e digladiadas se encaminhavam de forma inexorável para a verdade e a emergência das armas. E logo saquei primeiro da minha – bem afiada – e nem mais nada lhe deixei pronunciar, cansado que estava de tanto lhe ouvir as lérias.
E foi assim desse jeito muito selvagem de ser que lhe perfurei a alma, até ao silêncio, só para que ela não pronunciasse mais as tais injustas acusações contra o ser inocente que era eu…
Ausente, melhor dizendo.
Trago, desde então, a língua cansada - tal o esforço a que a sujeitei. Por isso falo pouco, agora. E digo mais nada, em melhor e última decisão.
A vida real de um homeless tem destes flagrantes: de repente chega um ser de nacionalidade duvidosa ao nosso lado e inventa uma briga num terceiro idioma. Claro que as hipóteses de reacção disponíveis no momento nos são escassas, já que o terceiro idioma só nos confunde e atrapalha; mas há que sempre reagir, sempre marcar bem o território e o tecto que usucapiamos, mesmo que não haja território nem tecto nenhuns para defender.
Lógicas das estrelas, nossas vizinhas, fiéis amigas.
Carregaria hoje às costas essa cruz de a ter desalmado caso não fosse ela também um estrupício que um dia sonhou viver os luxos urbanos sem outras armas que não um escangalhado acordeão de onde nunca saía harmonia nenhuma. Pelo contrário, passava os dias massacrando os ouvidos dos meus éreos comaradas - ali placidamnte acomodados nos bancos.
Toca agora outro instrumento, a doida eslava, boca e mãos, em surdina, atrás do velho ulmeiro...
E para qualquer um...que lhe dê corda...!
2 comentários:
Arrumando a casa...
Esta treta já tinha andado por aqui, mas tinha muito sangue, vulgaridade nocturna nestas bandas.
Dei só uns toques, com tinta de outra marca...
;)
Esta escena me interesa, creo que la he visto un día en el Retiro
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