26 de Maio de 2012

O povo e o polvo

Assim como o pior do amor é quando acaba, também o pior da vida é quando começa, a sério, a ser vida. isto seja, uma dura luta pela sobrevivência num intenso combate contra todas as adversidades. E se, em verdade, em sobrevivência já estamos quase todos - os que pensam a vida sem disfarces nenhuns neste emaranhado confuso e liberal -, então que fazer, como ser, sendo, já que somos poetas, por exemplo...?
E o que pensar, já que somos todos sonhadores idealistas, também por exemplo...?
Ou, por exemplo ainda, como agir, já que somos todos adeptos de soluções caóticas...?
Venha de lá o diabo e escolha, por mim, por nós, como às vezes, por exemplo.
Desenhado assim o cenário burguês da crise, passemos à realidade:
Era uma vez uma camponesa. E enquanto a camponesa campeava, a chuva e o granizo fodiam-lhe o todo campear.
Aí chegou o estado e disse: pagarás a distracção do teu tanto campear!
E a camponesa não pagou - pois não podia;
E o estado não cobrou - pois em verdade também não existia.
Logo chegou a dura realidade e estipulou:
Fiquemos assim: tu, camponesa e fodida, eu, Estado nenhum!
E assim estamos, fora das estatísticas, só para que constemos em algum lugar.
Entretanto as filas de esfomeados nas traseiras da Câmara Municipal do Porto recebendo um misericordioso jantar;
Entretanto o vizinho que pede uma cebola de empréstimo, um kilo de arroz... só porque se esqueceu de comprar.
Pois!
Era uma vez um povo que nunca foi povo. Aí chegou o polvo - com seus tentáculos - e transformou esse povo em pó, e, sem que ninguém desse conta, foi o apodrecendo, polvilhando-o com pó mostarda, com pó de talco, sacudindo e encaminhando-o até umas urnas eleitorais, bens cheirosas e tóxicas.
Aí, então, na mais certeira das horas, perguntou o nome a todos e todos responderam: povo!, nós somos o povo!
Então o polvo. liberalmente e vezes oito, tantos quantos os  seus todos tentáculos, decidiu:
Foderei todos, já que todos são apenas um!
E assim se iniciou o secular e tranquilo sono dos poderosos.
Brecht disse-o, há décadas, e eu só o relembro, agoramesmo!

20 de Abril de 2012

Novum Organum (antecipado)

... hay que abrir de par en par las ventanas y tirar todo a la calle, pero sobre todo hay que tirar también la ventana, y nosotros con ella. Es la muerte, o salir volando. Hay que hacerlo, de alguna manera hay que hacerlo. Tener el valor de entrar en mitad de las fiestas y poner sobre la cabeza de la relampagueante dueña de casa un hermoso sapo verde, regalo de la noche, y asistir sin horror a la venganza de los lacayos.

(J. Cortázar,  Rayuela)


4 de Março de 2012

Emigrando...sempre!

Agora que me preparava para repousar à sombra de uma mítica bananeira, para me emborrachar alegremente sem consequências de maior e também de me desligar formalmente de todas as ditas normais responsabilidades dos comuns mortais, eis que me ameaçam a bananeira, a improvável sombra dela, as caipirinhas e os vinhos tintos, e ainda por cima tudo isso eles fazendo em acenos de justificadas (des)responsabilidades governamentais, históricas, conjunturais, estruturais e... sabe-se lá que mais...
Agora que me preparava para morrer em paz obrigam-me a viver uma outra guerra, porém mais desarmado, mais vulnerável, menos valente...
É justa uma coisa destas, merecida...?
Penso que sim, apesar de tudo! (que outra coisa pensar?)
Porque o futuro nunca foi bicho em quem se pudesse confiar. E logo porque, sendo futuro, nunca pode ser garantido com as seguranças que os crentes desejam e muito menos através da viciada linguagem mentirosa dos políticos. E confiar no não-garantido é um tiro no escuro que já devíamos todos ter aprendido a não disparar. Nem a votar. 
Logo sou culpado, embora vítima...
E culpado sendo, em consciência optei por emigrar, proactivamente - como agora se diz -, abandonar o conforto do meu lar, o calor dos meus amigos e familiares, e sobretudo o intraduzível amor do meu J-Boy. Abandonei tudo, pois, comigo todo lá dentro; porque ser proactivo hoje é também isso, ser frio, cruel, apátrida e estupidamente revoltado mesmo sem causas nenhumas que valham tanto desprezo. 
Eis o estilo!
Fiz bem, fiz mal ?
Que interessa saber, já que a resposta é... futuro? 

19 de Fevereiro de 2012

S. Valentim

A borracheira ia já tão avançada que nem deu para se perder em mais delongas: pediu-a em casamento, pela segunda vez.
E o estranho da cena foi que ela, mais uma vez, aceitou.
Há histórias assim, borrachos casados há décadas mas pensando que ainda não.
Claro que no outro dia, em ressaca e com a luminosidade do sol, todos os arrependimentos regressam, inexoravelmente, e lá se vai o noivado pró cacete.
Ai  São Valentim, és um verdadeiro filho da puta!


26 de Dezembro de 2011

Postal

Merry Crisis
and
a happy new fear !

21 de Novembro de 2011

Hehehe!

“O lo arregla Rajoy o nos vamos a la puñeta”

8 de Novembro de 2011

Os gregórios...

Volto porque quero ver-vos agora assim pequenos, sem os paternalismos do estado e sem subsídios: todos mui sub e nada sídios, sem governo nem futuro para vos acalmar a ganância e a palermice. E digo pequenos e palermas porque durante estas décadas todas mais não se viu senão o catastrófico resultado dos vossos enganos, a nada mais se assistiu que não à desfaçatez e à gula com que - logo após a fome e a ignorância que vos tolheu a infância - pulastes a fase do remedeio e quisestes imediatamente comer o manjar dos ricos todos os dias, a expensas dos impostos dos outros, e lá no meio até quisestes também ser «doutores» sem universidade nenhuma nos miolos…
Tudo com o beneplácito do vosso santo e venerado partido. E como militáveis vós, acenando bandeiras de todas as cores…
Mas no final os bandidos foram os bancos, que nos prometiam férias em paraísos longínquos a suaves prestações, automóveis e vivendas de luxo a juros baixos...!
Claro que esta gente da banca é bandida, mas isso faz parte da sua natureza, fundamentada nos lucros cegos.
Agora os partidos? Essas entidades que nos prometem segurança e bem-estar e a quem quase se entrega a alma e as rédeas dos destinos colectivos…?
Não, não, caros militantes dos partidos: vós sois os verdadeiros coveiros desta gente toda!
Por isso quero ver-vos agora assim cabisbaixos e tristes como se algo de tremendo vos tenha acontecido. Ver-vos assim ridiculamente revolucionários exigindo com indignação o carro de alta cilindrada de volta, o apartamento impossível de pagar ao banco livre de hipoteca, o direito ao colégio particular dos filhos garantido, as roupas de marca, os vinhos seleccionados das melhores colheitas…, como se isso tudo fosse direitos adquiridos!
- Direitos adquiridos? Há direitos adquiridos num mundo cão como este?
...
Como é maravilhosa a História quando se mete a castigar a burrice dos povos!

1 de Outubro de 2011

Escafedido

Hoje suicidei-me, pela manhã cedo, como recomendam os cânones.
Este mui consciente suicídio terá uma duração de uma lua, talvez um mês...
Ou talvez uma duração eterna.
Sentia que já não andava cá a fazer nada de jeito...
(Ninguém anda, afinal!)
Sinto ainda o mesmo, aliás, já depois de suicidado. O que é facto estranho, já que nestes casos sempre chega uma sensação de arrependimento e quase nunca a reiteração da (in)coerência do acto.
Bom, liquidei-me sumariamente, e todo inchado de razões plausíveis: as minhas!
Agora prometo-vos voltar nunca, que é promessa bonita de se fazer em tais situações. Portanto, nada mais havendo a acrescentar, dou por encerrada a acta, que assino, enviando
beijinhos e abraços
do
vosso,
Jonas.
(Uf !)

28 de Setembro de 2011

Coloquiando...

Assim falou o marido dela:

«Agora nessa hora é que te alembras de vestir tuas vestes mais lindas? Fica mas é quieta, vê-te só nua, assim num tal estado quase tudo ou nada parecido contigo mesma, nos teus costumes do dia-a-dia…
Você sabe a nudez total?
Então vai só no espelho e te mira. Desde os altos dos teus sonhos mais ideabundos até à sola dos teus pés, esses vagabundos - lugar pelourinho de teus merecidos castigos, vergastados...
Vê-te toda toda, com um leve sorriso nos dentes - caso prefiras -, de preferência natural…
Desestranha-te perante a tua nudez total e aproveita logo para te despires mais, agora por dentro, até atingires um impossível despir-te mais
Depois, escolhe um pedaço de ti e toca, toca-lhe, ou então não, fica quieta! E sobretudo nada de sorrisos fotogénicos: zero poses. Deixa que seja o espelho a olhar para ti e logo verás como ele te reconhecerá de imediato e derrepentemente te dirá também as falas que tanto esquivas ouvir de mim.
(Só porque eu…)
Só depois disso, então sim, coloquiemos...» 
- Coloquiemos! – aceitou ela, agora toda já muito ela decidida, despida pelo espelho.
E logo disparou:
Esposa de médico vai na consulta de marido?
Hum?

26 de Setembro de 2011

assuntos de cornos

Nunca assisti - ao vivo - a uma tourada, a um combate de boxe ou a uma prova de F1, mas posso imaginar a violência que é acometida contra os touros, a que é trocada entre os boxeadores e também, caso o acaso o teça, imaginar o caos que será se um daqueles bólides se incendiar na sua box e pegar fogo a todas as outras, ou então se se esbarrar contra uma bancada repleta de espectadores e depois converter-se em bola de fogo que os assará a todos…
Digamos que a violência sobre os touros em nada ganha para a violência que existe – contigentemente - em muitos outros desportos e espectáculos. Ademais, circos com feras ferozes sempre os houve, sendo que em muitos deles a maior ferocidade até recai sobre seres humanos, e ninguém se atreve a fazer circular uma ‘petição pública’ contra esta ou aquela espécie humana.
Desconverso, claro.
Todavia aponto o seguinte: acabaram com as touradas na Catalunha e nas Ilhas Canárias usando o argumento de que era para proteger os touros; aqui, interrogo-me se algum desses militantes de causinhas chegou sequer a imaginar que, em se acabando com as touradas,
1 - se acaba de vez com aquela raça de touros;
2 – se extinguem milhares de empregos e centenas de actividades afins e
3 – se decreta o fim de um dos maiores símbolos turísticos de Espanha.
Para ficarmos só por aqui.
Em resumo, apela-se à protecção de uma espécie decretando o seu extermínio, e gritam nas ruas contra o desemprego mas provocando a extinção de milhares de postos de trabalho…
Lapidar, caros catalães!
Melhor do que isso só mesmo a decisão de Zapa em dissolver o parlamento, porque aí sim, é que aconteciam as verdadeiras touradas: as que embora provocando muito sangue aos contribuintes (os outros touros) e espantando os turistas, sempre deixam incólumes todas aquelas trupes de ‘toureiros’, essas  sim, verdadeiras cliques de aficionados…
Curiosamente, também todos eles militantes de algumas 'causas'...

25 de Setembro de 2011

Há que lê-lo...

Como por estas bandas já só se fala e se pensa em ‘Crise’, melhor será fazermos um pequeno interregno para pôr as leituras em dia.
E assim fazendo eu, em boa hora o fiz, já que encontrei uma pérola - coisa rara nos dias que correm:
«A  Evolução de Deus» - chama-se. E Robert Wright é o escriba.
Livro absolutamente fundamental – mesmo para todos aqueles que já tinham ‘levado’ com o tema nas suas Universidades.
A «portagem» custa cerca de 25 euros, mas vale bem a pena.

23 de Setembro de 2011

Jardinando...

Encanto-me quando me surgem palavras pueris crianças e elas depois se vêm divertir infantis em meus baloiços.
E assim fica o meu parque cheio de palavrinhas pequeninas muito pequeninas e divertidas, e chorosas tristes, e eu sentado no mesmo velho banco de sempre contemplando como elas se divertem saltitando de sol em lua em acrobacias meninas.
Agora já mais velho que o próprio banco, contemporâneo do parque mas ainda também criança cometa e astro-rei numa outra e quase derradeira vez, encanto-me quando essas palavritas crianças se metem em correrias e se esborracham contra os chãos tropeçando nas estrelas e nas lágrimas que por ali sempre vagueiam, eternas crianças pueris elas também…
As estrelas e as lágrimas...

18 de Setembro de 2011

Murphy e a mulher... na Cordoaria

Um casal de vagabundos conversando sobre as suas mortes que não deviam tardar.
Eu já encomendei uma lápide para a tua sepultura disse o homem.
E que diz nessa lápide quis saber ela.
Diz aqui jaz minha esposa fria como sempre esteve na vida.
Então também vou encomendar a tua para o caso de morreres primeiro e dirá mais ou menos uma coisa como aqui jaz meu marido rígido finalmente.

17 de Setembro de 2011

homelessando por aí...

Como uma metade chama pela outra, também a minha rabujice recente empurrava os meus filhos para a ideia de um urgente internamento.
E internaram-me. E assim fiquei completo, geronte e tonto, metade que era daquilo que eles queriam.
O pior foi quando cheguei lá, nesse dia.
Entrando, logo fui saudado por uma dezena de placas de plástico com sorrisos feitos à mão prontos a sorrir. Os delas, sobretudo. E também por outros sorrisos mais amarelos, os deles – certamente adivinhando tempestades.
E imaginassem eles o calibre de quem agora chegava, talvez até aquele amarelão virasse fel, bala, míssil ou bombinha de neutrões…
 - Jonas…, still alive! – anunciei-me, chegando chegante, hirto que nem um pau.
Fecharam os sorrisos, encravaram as matracas e encolheram-se nos sofás, acagaçados com tanta basófia.
Porém, uma das porcelanas continuou sorrindo, provocante, tipo ‘olha para este maduro, a armar-se…!
Sorri-lhe, falso compincha, D. Juan made in Cordoaria a piscar-lhe os olhos, ambos, vertiginosos, Pamplinas maquinista…
(Ah!, cómo suena a pasado la visión del futuro!)
Ao passar por ela sussurrei-lhe um imperativo e categórico ‘querida, hoje jantamos juntos’.
Ela, nada, apenas brasa, esplendindo, pouco esplêndida em seus quase oitenta.
Recolhi ao quarto que me haviam destinado sem esperar qualquer resposta.
Minutos mais tarde, irrompe quarto adentro e em pânico a gerontófila criada:   
- Qué-que-vocemecê disse à senhora condessa… que a fez mijar-se toda de uma maneira que até nunca antes?
Nada de especial, para além do convite para jantar – esclareci
- Pois olhe, logo vai ter de dar uma satisfação ao senhor conde, que a vem visitar para o chá das cinco – avisou a gerontófila, em tom ameaçador
Deixe o conde comigo. – sosseguei-a
E já a hora do chá, e o conde, esticadíssimo em seu lencinho de seda ao pescoço, engomado dos pés à cabeça, lacas e outros milagrosos produtos para o disfarçar do caruncho e ainda mais o pormenor da bengala cabo de prata, todo em jeito anglófilo, o sacana.
Um verdadeiro fucken bastard, por assim dizer. Completo.
- Você é que é o Jonas Still Alive?
Nada disso, sou apenas o Jonas; o still alive só se vai manifestar mais lá para a noitinha; e tu quem és?
Boquiabriu-se com tal republicanismo e plebite e logo avançou cheio de brilhos e garbos, nobreza ofendida em seus brazões:
- Eu sou o Conde de Defesas, Defesas de Cima.
Pois bem as pode defender agora que não lhe vai adiantar nada! – retorqui-lhe já pensando nos prováveis filmes com a sua condessa protagonizando comigo.
Aí o conde, acusando o sarcasmo, bateu violentamente com a bengala no soalho e virou-me as costas em sinal de desprezo, visivelmente indignado….
Diga-se agora – en passant – e atribuindo algum ainda vivo instinto à nobre criatura, que percebeu nessa minha resposta uma mais que certa possibilidade factual de a sua condessa se disponibilizar para este plebeu, muito mais novo que ele, muito menos feio, muito menos careca, muito menos entorpecido e, pior que tudo, muito mais sambista.
E assim tudo se veio a passar, de facto e imediatamente, consoante os palpites do conde.
A condessa era uma devassa, e eu gostava disso;
A condessa gostava da brincadeira, e eu também…
E de brincadeira em brincadeira, o Conde tomou conhecimento de tudo e com a mais nobre das delicadezas foi-me rogando que a convencesse a dispensá-lo das diárias visitas para o tea time. Porque – blablablá… «você percebe, não é?» -  também ele tinha uma namorada, mui antiga e estimada e ciumenta e sempre carente da presença dele...
Eu, claro, percebi tudo, sobretudo a carência que alguém poderia sentir de um escombro daqueles...
Acordo de cavalheiros selado, fiquei ainda com direito a uma contribuição mensal de quinhentos Euritos, para os vícios do tabaco e do absinto…
E assim decorriam os dias, na gerontança:
Dias ao sol no jardim e na piscina, jantares românticos à luz de velas com a condessa.
Depois, as célebres noitadas de absinto com a bela, adormecida, sereníssima em seu invariável sorriso dentro de um copo de água…
E foi numa destas noites, encharcado em absinto e agraciado com uma sistemática simpatia vinda lá da mesinha de cabeceira, que eu escrevi a história que agora vos vou contar:
Uma metade, um dia, exausta de tanto chamar a outra...

11 de Setembro de 2011

Semi-confuso valho mais

Agora que fiquei sabendo que valho tanto como quatro semifusas, e que com apenas três bemóis aterro direitinho num Mi bemol maior, ou com mais precisão, também num Dó menor, sinto-me mais confuso, com dó de mim - quer eu encare a vida de frente ou de ré, colcho…
Coxo, ouso dizer!
Sinto-me bemólico, um eu semi-eu, eu semi-colcheia, eu menor e mui melancólico provocando o caos nas pautas, paulatinamente, como quem não quer a coisa: Cho e pin, pin e pumba, bumba, colcheando, semínimo…!
Sinto que a musicalidade possível em minha vida se reduziu a uns signozitos insignificantes mas que, pelos vistos e segundo a misericórdia alheia, contêm uma singular expressão, uns ruidositos dissonantes que por vezes até soam e fazem lembrar músicas muito antigas…
Porém, reduzo-me à minha ignorância:
Tem signo para o silêncio?
- Tem!
Está bem, admito que tem, mas de facto não tem, pois meus silêncios nunca serão equivalentes a nenhum intervalo, a nenhum tempo, contratempo, ritmo, balanço…
A bem dizer, a tempo nenhum determinado de forma exógena!
E muito menos meu silêncio se deixa definir num hieroglifo pregado no meio de pauta nenhuma…
…Se bem que, pensando melhor, até não me importava nada de musicalizar este silêncio que agora me povoa, noite e dia, emprestar-lhe um ritmo cadenciado e doce, um balanço de samba triste cheio de contratempos - para as carícias - intervalando com o tempo dos beijos…
Balançando, balançando…

Bola de Berlim

A bola de Berlim não é mais que um sonho, redondo, escaldado, com açúcar…
Em nuance, por vezes, pode ser cortado pela metade e logo recheado com creme de ovos…
Moles, claro!

10 de Setembro de 2011

Regressando à Cordoaria...

Eram as tantas da noite, mas tudo se passou como se fosse manhã cedo. Ela, animal; eu, pior ainda, besta…
Bestialidade pura contra a intelectualóide animalice em guerras de alecrim e manjerona, de madrugada.
E porque coisa e tal - já nem lembro os argumentos - eu era merda e ela a virtude; eu era um não-és-nada, ela já a concomitante que era-tudo e ainda alguma coisa mais; tudo factos inacreditáveis, indemonstráveis e improváveis, já que eu sequer a quisera cheirar nunca...
Digamos que as coisas ali expostas e digladiadas se encaminhavam de forma inexorável para a verdade e a emergência das armas. E logo saquei primeiro da minha – bem afiada – e nem mais nada lhe deixei pronunciar, cansado que estava de tanto lhe ouvir as lérias.
E foi assim desse jeito muito selvagem de ser que lhe perfurei a alma, até ao silêncio, só para que ela não pronunciasse mais as tais injustas acusações contra o ser inocente que era eu…
Ausente, melhor dizendo.
Trago, desde então, a língua cansada - tal o esforço a que a sujeitei. Por isso falo pouco, agora. E digo mais nada, em melhor e última decisão.
A vida real de um homeless tem destes flagrantes: de repente chega um ser de nacionalidade duvidosa ao nosso lado e inventa uma briga num terceiro idioma. Claro que as hipóteses de reacção disponíveis no momento nos são escassas, já que o terceiro idioma só nos confunde e atrapalha; mas há que sempre reagir, sempre marcar bem o território e o tecto que usucapiamos, mesmo que não haja território nem tecto nenhuns para defender.
Lógicas das estrelas, nossas  vizinhas, fiéis amigas.
Carregaria hoje às costas essa cruz de a ter desalmado caso não fosse ela também um estrupício que um dia sonhou viver os luxos urbanos sem outras armas que não um escangalhado acordeão de onde nunca saía harmonia nenhuma. Pelo contrário, passava os dias massacrando os ouvidos dos meus éreos comaradas - ali placidamnte acomodados nos bancos.
Toca agora outro instrumento, a doida eslava, boca e mãos, em surdina, atrás do velho ulmeiro...
E para qualquer um...que lhe dê corda...!

Um sentido das coisas...

…Se no primeiro acto de uma peça vemos uma espingarda pendurada na parede, no último acto ela tem forçosamente de ser disparada.

(Tchekhov)

5 de Setembro de 2011

Mais as vacas e menos as 'ciones'...


Acabaram-se-me as férias tarde demais. Encurtá-las teria sido a atitude mais sensata, tal o disparate. Só que não fui capaz de escapar a tal penitência com a facilidade com que costumeiramente consigo, isto seja, accionar a tecla ‘foda-se!’.
Em resumo: o Algarve é para parvos, e foi o que eu fui durante quinze longos dias. Aliás, todos os Algarves do mundo são para parvos, conforme o sabia já o outro idiota do governo anterior quando propôs o escaganifobético slogan ‘ALLgarve’…
Pois: engoli o sapo. Mas com juras de nunca mais!
Eh pá, e eu que até tinha levado comigo o Cortázar e os óculos para o reler, as canas de pescar e a câmera fotográfica, para os tradicionais erros de paralaxe…
Ah, e animado com uma tímida esperança de reencontrar um amigo despistado há quarenta anos atrás. Reencontrado o amigo, voltei com a sensação de que nunca fomos verdadeiramente amigos e com a certeza de que não quero reencontrar-me com mais nenhum amigo, seja ele quem for.
Tal como parece estar a acontecer com alguns, também a mim o passar dos dias me está a fazer muito mal.

31 de Agosto de 2011

ecos do viver... ( não confundir com os Umbertos...)

Um homem vai existindo, descontraído, assim ou assado de humores,  por estes aquis e alis aturando fulanos e sicranos, mas de repente tem de pensar na ementa do próximo almoço, manter os sentidos todos alerta para que o peixeiro não lhe misture peixe de ontem no de hoje, para que o idiota do supermercado não registe duas vezes o mesmo produto, para que Johnny-boy se não aproxime de zonas de perigo, ou sequer as imaginando...
Por fim, já em pseudo descanso, um homem tem de atinar com os dedos que dedilham estes discreteares, cuidar da mínima cabeça que, se não se tem mão nela vai por aí estouvada em desvairio, baralhando os dedos e os discreteares. 
E isto o ano todo, num tal cirandar meio apardalado pelas divisões da casa, e do quintal...
Um homem esforça-se, esfarrapa-se mas o 'negócio' sempre vai endurecendo, agravando-se em níveis de exigência inexigivéis a quem de tamanho esforço precisa para se equilibrar em pé...
E já só sentado...!
Como o  viver é coisa de árduos trabalhos, por estas bandas!
Soe dizer-se que é exactamente aqui, por alturas de esgotamentos tais que a necessidade de umas férias se impôe:
E logo despedimos a empregadagem do secretariado, afastamo-nos do mar e das lotas e mandamos o caixeiro do supermercado para o cacete, fazendo votos para que esse estado maravilhoso se mantenha, sem nenhum deles, pelo menos até que J-B assente praça na Academia Militar - conforme o ancestral ditame - e  assim perca todas as ganas de se mandar para as zonas de perigo de cabeça baixa, em tentando descortinar em suas acelerações as chamas e os fumos que de seus pés saiem quando arranca, feito Scan2Go,  DRH ou Faísca McQueen directo a estes muros de pedra rija da vizinhança, e logo precisamente nos mesmos exactos momentos que eu, distraído na culinária, tanto desacerto na cebola como acerto nos dedos...
Um homem vai procurando existir, aos pingos, aos ecos, às migalhas e às sobras, porém nunca se sentindo seguro de que a tal forma de existir resista por muito tempo...
Porque um homem precisa de férias, de vez em quando!
Nenhum qualquer homem aguenta um precário equilíbrio, pá!
Pois...

15 de Agosto de 2011

Um beijinho do pretinho - daquele, lá do livrinho...

Afinal, agora já te cresceste - assim como que amadurecida só à-toa, num vupt-vapt, feita romã, pitanga…?
Ainda jogavas ao ringue e às caçadinhas ontem e hoje já te adultas com dezoito?
Com tamanhos oito e ainda mais outros dez em cima, em soma, dezena completa e mais ainda duas vezes quatro…?
Três meias dúzias deles?
Raiz quadrada de trezentos e vinte e quatro…?!
Estás a ver bem o filme em que te cresceste, feita romã, pitanga…?
O filme que outros filmaram - contigo dentro -, enquanto na vida iam acontecendo as outras coisas da vida, naturalmente, contigo ainda mais por dentro…?
E depois todos te lembrando a cada hora que a partir de agora é sempre tudo a abater – como dizem os Xutos, aos pontapés…?
Como se isso fosse verdade, uma simples verdade?
Mas não!
Pontapeia pois esses agoiros, ‘xuta’ para canto essas corujas, prepara-te para as enfrentares nas barras de todos os tribunais, internacionais que sejam, porque na verdade - como diz o tio polaco – a vida é bela!
E dura uma eternidade, digo eu!
E mesmo quando te parecer que nada te acontece, é porque está a decorrer um milagre que não estás a dar conta…
Por isso logo te imploro: dá conta deste! Deste que foi o milagre de te cresceres bonita e inteligente e simpática e fantástica feita romã e pitanga, enquanto nós - abacates velhos e abacaxis tontos – ternamente íamos imaginando os voos que se azulavam infinitamente para ti nos céus de todo o mundo, mas sempre pertinho de nós, os amigos, a família…
Ah!, mas já me deixo de tretas, antes que se apaguem as velas:
Ter dezoito anos é muito bom!
É muito fantástico…!
Fantastica-te, pois então!
Sempre!

12 de Agosto de 2011

Vento norte...

Cão que ladra, é cão. E não é mudo.
Constatações simplórias, prosaicas. Tipicamente polacas, afinal, conforme Wieslo nunca errara:  
- Mulher que mia antes que se lhe toque, não é gata mas cadela.
E não é que era, mesmo?
Havia sido como que…seduzido por palavras de amor, o Wieslo; e o apartamento e a cama e o champanhe e tudo o mais em demasias também lhe haviam sido igualmente patrocinadas pela ainda não-dita-cuja gata, agora já cadela nos comentários-de-fim-de-jogo de Wieslo - prática jornalística velha e já devidamente assinalada no seu currículo de jornalista-cameraman-fotógrafo-tradutor-professor de cinema e de video.
Ah!, e de fotografia...!
E entretanto a música, quente, apelativa escorrendo em feitiços pelas paredes da sala para logo se esbarrar nos cetins da alcova, exactamente…
Mas Wieslo ainda nada, só perscutando, re-bebericando intercaladamente os espumantes com as vodkas-laranja, enquanto ia abanando as ancas como que para lhe dar a ideia de alinhar em tais alegorias, tamanhos assédios…
E lá veio o filme, o verdadeiro, final antecipado reproduzindo o desespero solteiro e vadio daquela gata-cadela-portuguesa que ousou pensar-se gata em mios quando afinal devia ladrar em prosaicas palavras próprias de…quer-se dizer, foder!
Não fez assim, a gata, e preferiu perder-se em declarações impossíveis de se acreditar, em gemidos impensáveis de se divagar e logo se danou, a cadela, por mero desconhecimento daquelas constatações simplórias prosaicas à-priori dos genuínos polacos que andam por aqui a professores de cinema, de video e de fotografia…
- Ovelha que berra, é bocado que perde; mulher que geme antes que se lhe toque, é cadela, não mulher...
E não é que nesse dia, apesar dos tantos champanhe e vodka-laranja, o que Wieslo mais desejava era só mesmo uma mulher…?

Camusando...

Generosidade amiga ofereceu-me uma quinzena de férias na praia, no Algarve. Claro que aceitei imediatamente, já que não sou rapaz para viver de nãos. Mas como também sou generoso, ofereci-lhe setecentos e cinquenta euros - que logo os empochou - já que também nunca foi menino de viver de recusas. Em resumo, fiz a uma só vez um contrato normal e um acto de generosidade; ele, por sua vez, fez o mesmo.
E assim registará a história que ambos somos dois ‘gajos’ porreiros!
E que seremos sempre amigos, e generosos, e simpáticos: gajos que não gostam de viver de recusas...
Camus disse um dia que ‘só queria ser rico para poder ter tempo!’ ; ora eu que já tenho gratuitamente o tempo todo que Camus desejava alcançar através do dinheiro, para que preciso eu de dinheiro?
Começa-se assim a descobrir a razão da minha generosidade?
Ignoro todavia as razões da generosidade amiga, mas suspeito que também ele - que já dispõe do tempo -  leu as confissões de Camus e lhe imita agora os tiques existenciais, em nome da generosidade e da amizade entre os povos…!
Pois.

10 de Agosto de 2011

pala...quês?

Chegassem-nos elas como as estrelas, assim brilhantes, organizadas em seu espaço natural; chegassem-nos assim e não como nos chegam as memórias, caóticas, nebulosas vindas sabe-se lá de que obscuros passados, ou chegadas em turbulências, tempestades, borracheiras, melancolias…
Chegassem elas exactas – no tempo e no modo – e não mais seriam necessárias estrelas, nem memórias; e talvez por fim, já nem elas, as palavras, nos haveriam de ser também necessárias…
Borracheiras e melancolias à parte!
Porque elas – putas que são – nunca nos chegam quando mais delas precisamos: nas despedidas, nos perigos à frente dos olhos, nas mortes…
Elas chegam-nos assim, despropositadamente, porque delas já não precisamos para nada; porque em precisando, faltam, embargam-se, travam-nos, desconsistem-se feitas uma coisa qualquer deixando-nos por ali à-toa, destempicos...
Ou então, noutras guerras, chegam-nos feitas temperos, especiarias, cravo canela e pimentas de todos os reinos, e depois piram-se das panelas feitas metáforas quando mais por elas – especiarias - clamam os peixes e as carnes, os legumes e os molhos…
E acabamos por ter de comer a própria panela, vazia, maldita gula, estúpida dependência…
Ou ainda – como nos casos poéticos - ventres a crescer com elas dentro misturadas com punhais e outras coisas menos, e elas nada, ou quase, mas com nomes já azuis, azulados, ventanias, temporais, nebulosas, memórias, estrelas…
Borracheiras...
Melancolias…!

(Essas são as pala...quês - as de que tanto falais?) 

7 de Agosto de 2011

Quando for grande quero ser o José...

Para os pesados disfrutes das noites e dos silêncios, para o diálogo com as estrelas e o cão - únicas companhias de tais viagens -, sempre rara lhe foi a camaradagem. E assim José se deixou só, lá no cimo do monte, mastigando quietudes como alimento e triturando as vísceras de uma existência que - porque sempre a quis autêntica - sempre lhe foi bruta: ora partindo a dura pedra a golpes de tenacidade, ora desconseguindo tudo num desmilagre Gaudi.  
Agora, obra quase nunca acabada, tranquilidades a espirrarem-lhe dos poros e do olhar, já uns outros lhe dizem: «escreve um livro, José!»...
Mas a vida para José não é livro para ninguém, porque para as nudezas da vida de José raros seriam os olhos que a tais palavras se habituariam; e tanto assim que do silêncio das suas noites sempre brotam jardins, floridos, silenciosos; e dos diálogos com as estrelas sempre lhe nascem luas, sempre novas, sempre cheias, e logo para esses milagres não existiriam as palavras exactas, nunca.
E porque depois até uma cabana de troncos de suas mãos e noites lhe nascia também, entretanto...
E uma cascata de água fresca...
E uma secreta esperança - sublime absoluto - filha do velho sonho da cabana com a ideia da cascata, apadrinhada pelo cão;
E por fim ainda uma reforçada fidelidade à vida, naturalmente canina e silenciosamente autêntica numa perpétua condenação...!
A vida de José dava um livro...!
Escreve um livro, José...!

3 de Agosto de 2011

Segundo saco...vazio

Este saco de palavras que ora transporto às costas na verdade não é um saco de palavras, já que não as contém; na verdade, tão pouco ele é saco, na sua inicial e verdadeira função de saco, já que sempre esteve vazio.
Melhor, este saco não é sequer um saco, pois não existe. E em não existindo ele, não existem costas nenhumas e muito menos existo eu...
Ademais, é bem claro que as palavras só se metem num saco quando não valem nada, tal como as violas quando desafinam ou tocam demais...
E que os homens só andam de saco às costas quando perdem os abrigos... ou as fundamentais referências.
Claro que há por aí muitos desabrigados com sacos como este querendo-os passar por sacos repletos de inúmeros conteúdos: tiros, pólvoras e poeiras, palavras que sejam;
E claro que eles - os sacos - grassam por aí como ervas daninhas assim exibidos em chãos de feira, em salões de vaidades, em mantas de solidão ou abrilhantando noites de poesia por esse mundo afora, gratuita e alarvemente...;
Claro que depois eles se perdem na primeira beira-rio que lhes apareça acenando-lhes correntezas que ignoram, águas que nunca antes navegaram ou insondáveis profundezas que sempre temeram...;
E por isso se deixam roubar facilmente, já que bem lá no fundo se sabem ninharias...!
Claro que...
Bom, na verdade verdadeira, e atalhando, está bem claro que o mundo está, definitivamente, todo roto!
Para mim, claro!

31 de Julho de 2011

Saco cheio...

Tinha um saco cheio de palavras para oferecer, mas levei-o a passear pela beira-rio e não sei como, perdi-o…
Perdeu-se-me, o saco, com as palavras que tinha para oferecer…
Será que se diluíram nas águas, elas, fugidas do saco cansadas de mim, estrangeiras…?
Será que se entusiasmaram palavras numa primeira vez água, depois rio…?
Correnteza, mar…?
Vazias vãs nenhumas…?
Ou será que mas roubaram: objectos pedras cristais …?
Deambulam vagabundas agora por feiras de velharias ao sábado, desde manhãzinha...?
Sem legítimo dono e destino incerto?

26 de Julho de 2011

oh!...

O pior da verdade é quando ela se vira contra nós, bruxa quiromante em corpo revestido a espelhos por todas as arestas…
O pior da verdade é quando ela choca consigo mesma, a bem dizer…
E ainda pior que isso – o tal pior só imaginável quando depois de chocar consigo mesma - é ela deixar a nu toda a nossa nudez…
Posso garantir!
Experimente-se sair para a rua completamente nu, numa nudez de farrapos apenas, e não ainda de outras coisas;
Ensaiem-se uns passos de dança, com chuva, para enriquecer ou disfarçar a cena como nos filmes clássicos; um andar erecto e firme como que a avisar o pagode todo que não se trata de bebedeira nenhuma…
Depois, em escapando a todas as rusgas e olhares policiais, voltem para casa, mirem-se ao espelho e descorram, honestamente, sobre a vossa cena acabada de representar, com vós dentro, pois claro…
Ou então, tudo em contrário: deixem-se ficar em casa, enverguem o vosso mais abrigado sobretudo em pleno verão e mirem-se também ao espelho forçando ares de quem está  acertando algo secreto com a sogra ou com o cangalheiro, tremendo um frio inventado nesse momento, só para o sketch…
Ensaiem uns sorrisos amarelos para disfarçar as gotas de suor que se escapam de tal palhaçada, telefonem a uns supostos amigos contando-lhes da conversa com a sogra ou com o cangalheiro, queixem-se do vosso calor ou do vosso frio - tanto dá que seja tifo -, chamem uma ambulância, bebam mais um trago de água, morna, para desentupir; berrem a sete fôlegos por socorro, partam a mobília toda, incluindo a de família e a de estimação…
Depois, em escapando a todos os escandalosos despertares vizinhos, voltem para a cama, regressem à febre intestinal que vos tolheu, ao paludismo preto que por escravo também se vingou em vós, ao cancro do avô que vos morreu de coisa má em novo, por ser tão mau ou talvez não;
Regressem à tal saudade de um futuro de parcas e pobres hipóteses com que ultimamente cismais, despertos ou a sonhar, em modelo pesadelo, ou com estilo…
E então aí chegados, agora sim, experimentai a verdadeira e fria nudez, e ide a contas, tal como eu já de lá vim, nu total, só quase eu e minha pele com dó de mim, já que o ego se tinha pirado para a bexiga, abandonando-me encharcado de misérias e em vergonhas.
...
Recordo ainda aquela sala enorme e escura, comigo pelote ao centro, e as altas paredes por onde descorria  viscoso e mau o palavreado vozeirão de uma mulher velha e preta, seguramente muito preta e muito velha, como que pedindo ajustes de contas já muito esquecidas ao gajo em pelote que era eu:
Lembras-te de quando, cheio de prosápia, me exibias os músculos e as vãs promessas que jamais poderias garantir com aqueles ridículos músculos e aquela insustentável e leve prosápia…?
Recordas-te de naquele último baile em que bailamos me teres pisado o pé, quase a despropósito, só para estragar o meu verniz acabadinho de estrear?
E de sempre me afiançares um 'sempre' naquelas vezes que deveriam ser de me sossegares com garantias de um 'nunca, nem pensar'…?
Porque eras jovem e poderoso, os 'sempre' eram leves retóricas e os 'nuncas' matérias pesadas, coisas brutas de se me dizerem… em pueris promessas de amor que fossem...?
E do outro lado dessa tua prosápia e dessa tua toda vaidade, julgavas que em vez de mim estava quem, em teus pretensos diálogos: uma velha leve frágil e prosaica, carente de memória...?
Verdade envelhece, tem idade…?
Espelho acaba quando parte, desespelha...?
Confundiste o eterno corpo da verdade com a fugaz verdade do corpo?
Tomaste a montra do Corte Inglês pelo espelho da vida…?
Ha?


P.S. - E assim narrei o tudo que me recordo dessa experiência…, vicissitude que desaguou na cama número nove da enfermaria de um hospital muito degradado, com o meu avô à cabeceira torcendo-se com dores de sífilis enquanto ia balbuciando sempre uma mesma frase meio desconexa, em nítidas agonias. Algo que me soou parecido com…foge delas caipiras, foge delas sopeiras…delas piranhas, delas todas, putas, putas…
E até hoje não sei a quem ele se referia com aquela lengalenga…
Nem me importo, a bem dizer…
Na verdade fiquei só traumatizado com aquela do Corte Inglês, e isso já me é bastante para doravante iluminar o resto do caminho futuro em termos de outras nudezas…!

25 de Julho de 2011

Outro postal, sem destinatário

A gente chora, juntos…
A gente liga o passionómetro e logo sente que o amor é uma agonia, que vem de noite e vai de dia…
A gente sente que o amor é uma alegria,
e de repente,
uma vontade de chorar, em companhia…
A gente chora, juntos, só que este choro já alguém o chorou antes de nós, e pior, sem ser por nossa causa…
Então o amor não é mais que uma dor de dentes, afinal...
A tristeza de um sorriso, que de repente se apaga, sozinho….
O amor é um funeral…
Ah!, tudo mentira:
o amor é tudo o tanto que não temos disfarçado de dor só para não nos magoar com mais força, piedoso de nós…

23 de Julho de 2011

Para quê...?

Está bem que a muitas criaturas deste excêntrico planeta lhes dá, em certa fase da vida, para usar brincos e furar as narinas, a preferir mulheres com metade da idade deles, exibindo-as em danças de rock com passes e revirangas de tango em discotecas juvenis;
Há outras que, numa derradeira e vã tentativa de disfarçarem a juventude que já lhes fugiu há longo tempo - cena teatral que, afinal, mais lhes salienta a velhice e a escombraria -, dão para  se atirarem para os ridículos milagres da plástica, como se …!
E é ainda verdade que a muitas outras criaturas lhes dá para começarem a imitar desenfreadamente tudo o que a moda lhes coloca à frente, a participarem em tudo o que seja manifestação com cartaz de promoção social, cultural, tal e qual, só para que…
E também a muitas outras lhes dá para, pura e simplesmente fruírem um esquisito sintoma de tranquilidade, nada fazendo e nada deixando por fazer num tal mui humano e burguês ‘pouco dever fazer’…!
E embora sendo estranho, na verdade está bem equilibrado assim o mundo, com esta enigmática variedade toda.
Mas ainda assim, sempre pergunto: para quê tudo isto?
Que finalidade, que teleológico absoluto de satisfação nos impulsiona quando nos envolvemos, de repente numa certa fase de nossas vidas, num projecto ou tique existencial deste tipo?
Ou de outro qualquer?
Imagino-vos as respostas: toda a gente tem direito a procurar a paz (ou a felicidade) da maneira que melhor entender…!
Mas insisto: para quê?
Como é viver em paz?
Como fruir a paz senão em dolorosas memórias de guerra?
Ou em saudades dela…
E ser feliz, o que é isso e do que consta?
Medo de um tempo infeliz, passado, que sequer imaginado se deseja?
Ah!, mas o amor, essoutro mito que tanto lateja no coração do bandido como no peito da freira noviça…?
Para que raio de objectivo se encaminham as pessoas quando se empenham em heroísmos de paz, em ridículas ilusões de felicidade ou em sacrifícios de amor?
E tudo isso para quê, qual a verdadeira finalidade disso tudo em vós, infelizes mortais?
Não vos bastaria, simplesmente, estar quietos, e pensativos…?
Olhai para os tibetanos, olhai para as estátuas gregas, para as árvores, para a música…!
Nada penetra nesses brutos corações?
Discreteio, simplesmente, como sabeis. Mas todo este meu discretear se deve ao facto de ter ganho no Euromilhões e não saber o que fazer com tanta pasta, mesmo depois de ter distribuído mais de metade dela…!
Para que raio preciso eu de dinheiro agora, que já nem de paz, nem de felicidade ou de amor precisava?
Estava tão pacificado assim com as minhas saudades da guerra, tão feliz com as minhas memórias dos tempos infelizes, tão romântico com o latejar bandido do meu peito noviço…!
Lá terei também que furar as minhas estimadas orelhas?
Que exibir a nêga bundona ou a louraça peituda, que em nítidos fretes comigo, até dançarão rock ao ritmo de tango?
Lá terei de aturar os convites sociais, culturais, tais e quais…?

21 de Julho de 2011

Férias...?

Experimente-se reservar um alojamento numa qualquer cidade, numa determinada data, beneficiando de uma qualquer promoção;
Consultem-se todos os sites disponíveis para a mesma promoção, ou ainda outras, já que são inúmeras nesta altura, tal como as moscas.
Sigam-se os procedimentos aconselhados, apontem-se datas, entrada e saída, e logo a mensagem que surge é sempre a mesma:
Lamentamos, mas o último quarto/apartamento foi alugado há X minutos e Y segundos!
Azar!, pensamos. Mas não, esses diligentes e amáveis sites logo vos propõem como alternativa inúmeros outros hotéis/apartamentos, só que – azar outra vez! - a duplo ou triplo custo.
Apontai. Eles são, entre muitos outros: Destinia, Hotelopia, Logitravel, Homeholidays, Lifecooler…
São imensos os espertalhões tentando ganhar dinheiro com a eventual boa-fé na Net que uns tantos parolos alimentam.
Hoje, depois de simular uma marcação para um hotel do Algarve, num site destes figurões, depois de ter obtido a resposta do costume telefonei directamente para a recepção do mesmo hotel e habilitei-me a um mesmo quarto, na mesma altura e ainda com o acrescento do pequeno almoço, já que não incluído no pacote dos figurões. Resultado: menos quinze euros diários!
Claro que recusei, simulando aceitar em promessas de um breve voltar a ligar.
Matutei, matutei e decidi: nem de borla! Que as crises arruínem estas quadrilhas para sempre!
E vou a banhos para o interior de França, trocando o mar pelo vinho e vingando-me nas piscinas aquecidas, e logo depois massajando os ossos do esqueleto com as minhas velhas pomadinhas chinesas de cânfora, em substituição do sol...
Porque já não há mais paciência para esta Europa litoral e turística…!
Não fora o pânico dos aviões, nem um Euro arriscava em férias com esta malta…
E saber que meus amigos da Bahia oferecem o paraíso por menos de 20 euros por dia, dá comigo em doido, humilha-me, minimiza-me, medroso…
Porém, pânico de avião é coisa muito irreversível, em mim!
E que nunca vos conte tais razões, como aquela, por exemplo, de me surpreender quase rezando a uma sabida inexistência superior, borrado de medo sobre o Atlântico...! 
Ah!, como é gostoso brincar com a vida, mas só até àquele dia em que ela começa a brincar conosco...!
Pois, Bordéus!, bom vinho, pomadinhas chinesas... está decidido!  

20 de Julho de 2011

Pé-na-bola...

Uma vez, certa vez deu-me para me apaixonar pela paixão, já que de ninguém dispunha para entregar tanto sentimento, tamanhona irracionalidade.
Vai daí, as coisas começaram a ficar pretas para as minhas bandas: amigos me estranhando, inimigos me aplaudindo.
E logo desconfiei, racional, humano, mínimo...
Tempos decorridos sobre essa tal desorgasmância, deu-me para racionalizar esses meus ditos cujos passionais caprichos, fidebecar tudo, a bem dizer: eu todo incluído nas mínimas merdas criadas a partir de nadas ou de erros de um estado sentimental que – sempre foi sabido - continha tudo menos razoabilidade alguma…
Este é – como vedes – um possível relato de um fim-de-jogo, reforçado com a mesma validade que benificiam os comentários futebolísticos dos jornais de segunda-feira: tirei de jogo um defesa para reforçar o ataque com um avançado que não me garantiu golos, e perdi o jogo.
Se o tenho ganho, outro galo cantaria agora em meus argumentos e também outras luzes luziriam em meu jardim...
Porém agora, antes do início de outras possíveis partidas nesses outros sempre possíveis futebóis, será que posso garantir racionalidade alguma para não cometer os mesmos erros – descurar a defesa apostando no ataque – , em tirando de jogo a sensaborona paz para a substituir pela irracional e revolucionária paixão, que pela sua própria natureza, nunca me poderá garantir golos...?
Outra vez um orgasmal desorgasmando…?
Hein?    

18 de Julho de 2011

Postal do Porto, húmido...

Como é doce e pacificador receber boas notícias…
Já era tempo:
Ouro em Cerveira,
Prata na Galiza e platina em Madrid.
Deus é branco!
Aqui pelo Porto, continua a chover, miudinho, só para que a praia se não torne costume em demasias de sol e calor para os tantos pobres que destas aldeias vizinhas vieram a banhos, e a sonhos também.
Os pobres do Porto são todos pretos.
Está visto!

11 de Julho de 2011

Piri...quê?

O não poderdes saber, como eu já sei, que o que nos interessava saber nunca o saberemos, maugrado os todos possíveis acasos, torna-vos seres inúteis em diálogos sobre penumbras deste tipo, estrangeiros que sois de tais inimagináveis misérias…
Por isso falo sozinho, para o tecto e para as luas, e também para qualquer eventual ave nocturna que se aventure pelo escuro do meu quintal, em me ameaçando os figos,  já maduros…
Falo para os pirilampos, também.
Mas tenho pássaros presos em gaiolas que uso como chamariz de outros pássaros sem gaiola nem dono nem amigos, tenho tectos sem paredes que se sustentam suspensos em lógicas e matemáticas imposições de limites e pesos da ciência arquitectura, e tenho, amiúde, luas como digestivo, ou derivativo, consoante a fase.
Tenho pirilampos, também…
Tenho eu como inimigo, em noites tais como as de hoje agora.
E isso só para que não digais que...
Pois.
Mas o não poderdes saber, como eu já sei, que o que nos interessava saber nunca o saberemos, baralha os meus pássaros nas gaiolas, perturba o voo nocturno das rapinas aves, troca-me as luas em suas minguanças e cresceres e, pior que tudo, apaga-me a única luz da vida, comicamente irradiada do cu de um insecto no meu quintal…
Tomara não saber, como eu já sei, que em noites de lua cheia se não deve falar para o tecto ou para a lua e muito menos para qualquer vampiro que se aventure pela noite aos nossos figos....
Hoje, e mais uma vez, fico com os pirilampos...

10 de Julho de 2011

Para acabar de vez com os filhos das putas...

Claro que qualquer mulher fértil pode ter filhos, por menos puta que seja. E esses diversos filhos - os das menos e os da mais putas - nada têm a ver com essa premissa que consiste em apurar se as suas mães eram ou não putas, por maior maldade que se pretenda. Porque a nenhum filho de uma puta lhe foi perguntado se queria nascer assim nessa condição.  Pior ainda quando a nenhum putativo pai de qualquer filho de puta lhe é perguntado se pretende vir a ser pai de um filho de puta, pois recusaria na hora, como é evidente.
De forma que os filhos de puta, verdadeiramente, não existem. Existem sim, lamentavelmente e sempre, umas pobres e coitadas criancinhas que devem a sua existência a descuidos de uma qualquer mulher da vida. 
Ora, é a estas criancinhas que se quer atingir quando chamamos alguém  de 'filho de puta', com os olhos carregados de ódio e a cabeça vazia de toda e qualquer racionalidade?
Claro que não!
Que fique então desde já estabelecido para todo o sempre: ninguém é, literalmente, filho de puta!
Pois que verdadeiramente, verdadeiramente só é filho de puta aquele cuja mãe nunca foi puta, mas que ele, por sua prática social e humana, manifesta que bem merecia ter tido esse estigma genético.   

Cacaria...

Estes cacos de garrafas, estas palavretas, estes humores fervidos e coagulados em ressacas de amor após ruínas de casino, nada têm a ver com qualquer guitarra de rico displicentemente abandonada num canto do salão, apesar de assim parecer.
E estes cacos também não são o resultado do estridente acaso daquelas garrafas estourando-se em contra-mão contra uma qualquer situação desesperada, apesar de assim também parecer acontecer…
Não! As palavretas com que me alimento não me impõem um cantar com boa voz, que as saiba dedilhar artista harpeiro em cordas de falsas harmonias, ou sequer que as saiba pronunciar certeiras em todos os seus ritmos e rimas…
Porque normal por normal, sempre acabo desafinando em português e em todas as línguas, apesar das subjacentes melodias em meus falares, normalmente sentidas pelas poucas boas almas que ainda rareiam pelo planeta …
Como vedes, as palavretas saem-me directas do coração, já que por ali directas entraram; mesmo que depois desafinem com as diferentes fotos que me paparaziam, em outros movimentos de contra-mão – esses sim, meus bandolins preferidos em grotesca exibição contra um muro de vergonha só meu…
Estes cacos de garrafas…vazias, cadáveres, inglórias...

9 de Julho de 2011

Escrevo, logo desisto

Eu bem tento provar a mim mesmo que esta coisa do 'escrever' contém algum sentido, mas o resultado é sempre o mesmo: não se distingue do mijar, ou de qualquer outra tarefa menos digna.
Escrever por escrever é pior do que ter de mijar a seco, ou seja, sem ter o que mijar.
Imaginais as dores? Concebeis o absurdo?
Pois assim é. Só que aqui a dores chegam depois da mijadela, provocando-nos fúrias e apetites de bebermos o próprio mijo, nem que seja para o esconder de olhares juízes.
Escrever com palavras entendíveis por outros é assim uma violência contra a sensibilidade da autenticidade de cada um, que deveria ser secreta, íntima, incomunicável por palavras - e muito menos em páginas como estas.
Escrever por escrever, mesmo que obrigatório e compulsivo, deveria ser proibido, ser desencorajado e até - em alguns casos - ser considerado crime passível de pesada pena em tribunal sumário. 
Porque o escrever é um acto assassino, suicida na maioria dos casos; escrever é bradar ruídos de intranquilidades no silêncio das tranquilidades dos outros; é uma invasão, um acto marginal comparado a um assalto à alheia propriedade privada...
Ou então, pior, é vaidade saloia: é um pensar que existe alguém interessado nos nossos escrevinhares, alguém preocupado com os dramas da nossa existência, alguns educáveis alunos das coisas nenhumas que julgamos saber, mas ignoramos.
Escrever por escrever - mesmo que por obrigação - é assim uma grande palhaçada!
Não é assim, companheiros palhaços?

7 de Julho de 2011

Estou grego...?

E que tal - já que a crise - experimentar uma curiosidade cosmonauta e lutar pelo fascínio das profundezas do mar, começar a curtir repentinos aterrares nos cimos das montanhas ou nos planaltos das superfícies das estrelas…?
Que tal tentar, assim feitos estrangeiros e doidos, chegarmo-nos mais para Marte, para a Lua..., levantando voo desde a sombra da figueira do quintal, desde o balcão de um bar ou mesmo desde cais nenhum?
Que tal desatarmos a espalhar sorrisos e abraços nas vezes dos fados, dos choros e das romarias - tudo assim sem poesia e sem pátria, mesmo não imaginando ninguém merecedor dos nossos sorrisos e abraços? Assim sem sabermos que sabemos fazer o contrário disso tudo ? 
(Cantar o fado em choros e gritar como possessos em romarias folclóricas, quero dizer...)
Que tal, hoje, agora, experimentarmos uma simplicidade na nossa vida, um tal apaixonarmo-nos pela empregada da caixa do supermercado ?
Uma visitinha à nossa sepultura futura ?
Espetar um balásio na testa do moedinha romeno da nossa rua?
Coisas simples que sempre podemos fazer mas sistematicamente esquecemos, apenas porque as agências de rating nos mandaram para o lixo de todas as crises...
Por isso, avante, vítimas da crise...
Avante, que estas coisas só nos 'passam' quando bebemos uns copos!! 
Também...crise ou não, tanto nos dá como se nos deu...!
Não foi sempre assim?