quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
first gig in hell
sábado, 5 de Dezembro de 2009
Outro ultraje...
Você nem sabe de si nem que um nadinha!
Tu nem que de mim já te alembras, nessas noites e madrugadas…
Quanto mais de quê…!
Então porquê você fica só falando que, que quê?
Prometendo tudo só o das promessas?
O das promissórias?
Acaso te devolvo as mentiras que me mandas?
Acaso te desrespeito nos respeitos prometidos?
Então porque me falas assim, de candingolo só na cabeça como se eu fosse uma tua outra como que nem as outras tuas?
Hum?
Estás a quê?
Estás a mandar só porque és marido?
Hum?
Meu cheiro já não te cheira?
Meu suor já não te faz suar?
Eu toda já não te acomodo?
Hum?
Atão vai’mbora, deslarga…me
quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
Ultraje (parte 2)
Por que estranha razão deixaste de me falar as importantes falas?
Fiquei-te estranha ou, empiorando, fizeste de mim uma tua desconsiderada, inexistente?
Uma tua nada?
Estranho como ainda ontem - em meio de beijos e carinhos - me juraste as juras sem que sentisse no teu olhar notáveis diferenças, mas está bem:
Disfarce é coisa de homem quando é homem.
Quando homem é macho.
Homem um dia sim outro dia não, e até mesmo na mesma hora, a mesma cara: máscara diabólica com sorrisinho de anjo! Esgar vazio de tudo ou cheio de nada, no que vai dar no mesmo.
Estou porém acostumada a brutais derrames sanguíneos com as minhas ilusões.
E não seria agora por mais esta uma que me haveria de deixar derrocar feita escombro:
ruína de mim.
Isso, nunca!
Sabes onde moro, quem sou e para onde quero ir, junto contigo.
Deixo portanto o restante para as tuas indecisões, teus apagamentos de memória de mim quando não me falas as importantes falas dos teus falares...
II
Mariazita
... Até que te falaria sempre essas todas falas, bem sabes. Só que por vezes tem um problemazito: minha cabeça não pensa só quando e como eu quero, com as palavras que eu conheço e falo e também não deambula apenas pelas planuras que eu mais gostaria; por vezes ela sozinha por outras distantes plagas, inacompanhável, livre quase que nem anarquista, e sem mim.
Nessas horas fico outro, fico errante fera só no farejando os cheiros, no seguindo instintos da carne – que não é fraca, como bem experimentas.
Na verdade meu coração te pertence, mas só durante dois dias de cada vez ele aguenta. Porque no terceiro dia já a casa toda fica só cheirando a eu próprio, minha pele toda exalando para dentro, fazendo-me demasiadas estranhas repulsivas catingas. E então aí fico-me todo insuportável, e logo logo o mato grande me chama em ciosos apelos gritados pela bicharada toda, ao mesmo tempo, na mesma lua…
E aí é chegada a hora de partir.
Por tudo isso, Mariazita, fica fria, sempre estaremos juntos.
E não penses nas ruínas e nos escombros: isso são os assuntos só para os engenheiros civis, não para as mulheres, em suas cartas chorosas.
Teu, Zé Kilama
terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
It's only words...
Ou como os gritos, animais, irracionais, brutais, opacos…?
Ou como os gestos e os olhares, gramaticalmente inexprimíveis?
Palavras para serem palavras nunca deveriam poder ser escritas. Antes deviam ser como olhares, espantos, espasmos, gestos ou gritos.
Num mínimo admissível.
Quem chega depois do facto que pretende exprimir não pode aspirar a exprimir seja o que for.
E elas sempre surgem depois, atrasadas e irritantemente condicionadas à erudição da sachola de cada um.
Sobretudo nas tragédias, e nas cartas de amor, também; o que nos manda de regresso a outras tragédias…
Digamos que as palavras são as nossas prostitutas baratas preferidas…
Ao escrevermos as palavras, secamos as lágrimas, apagamos o sorriso na concentração de as escrevermos correctamente e, por isso tudo, fechamos a alma que lhes emprestaria algum sentir. Alguma autenticidade, o exacto contrário da palavridade.
Todavia se vão acendendo algumas luzes, com elas…
E é assim iluminados que nos é facilitado o mentir em espectaculares acrobacias, tarar vidas em juras de nunca mais, arruinar futuros em promessas de logo se verá - aliás como qualquer fazedor de história, que faz com elas a verdade verdadeira das actualidades que se vão verdadeirizando de forma actualizada a caprichos de chefe, em flick-flacks e em pino, mas primeiramente sempre como palavras, palavras-chave intentando descrever factos porventura acontecidos, porém nunca assim – daquela forma – acontecidos.
Palavras são apenas palavras, meu!
Flores, apenas flores…
Símbolos e mais símbolos tentando enganar-nos a verdade do melhor preferirmos nada, ou o silêncio das bocas e das mãos.
Ainda ao menos se elas fossem – de facto - pactos de rendição, desistências, insistências, leis, contratos, confidências de estado…?!
Coincidências, pelo menos…!
Se ao menos fossem gritos, raivas, palpites, inércias, insónias e quedas de impérios…
Talvez que tudo isso me impusesse uma comunicação em palavras…
Caso contrário ou diferente, nunca rebaixarei a expressão dos meus sentimentos à reles condição de palavreiro!
Palavras?
Leva-as o vento!
E quando não, se forem ridículas, aquelas ridículas palavras de amor, essas leva-as o carteiro, seladas em carta, só para que o vento as não leve também…
…
Ah!, como eu tenho nojo das palavras que são palavras…
Como me repugnam as palavras que se escondem dessa vergonhosa condição de meras palavras tentando ser outra coisa além de palavras: veículos abandonados nas bermas da vida por avarias várias e sempre disponíveis para serem catadas por quaisquer cretinos…!
Palavra que é palavra é inexprimível, incaligrafável; é não-palavra, e logo não existe.
E por tudo isso, minha amiga, manda-me palavras, dessas mesmas que agora te falo, inefáveis, porém impressas – se possível - nas plásticas pétalas das rosas vermelhas da nossa amizade…
Melhor te dizendo: silêncios.
Exemplastifiquemo-nos em palavras vermelhas de plástico com símbolos de flor…
Mas com ternura!
Morreram os jingongos...
Na semana passada embarcou o último jingongo, o Mido Zé, irmão de Zé Mido. Antes tinha subido o Chico Maravilha, o Airosa, o João Bula, o Zecazito, o Zé Mido e tantos outros. Agora foi a vez de Mido Zé, jingongo de Zé Mido, sem komba nem destaque nenhum para prestígio daquele adefuntado caminho de aqui, no preciso aqui desta fria e longínqua Tuga - dificilmente suportado sem família mais nenhuma que não sua mulher e seu filho, Mido Jr.
Quando o telefone me avisou, nem quis acreditar. Rapaz saudável, bonitaço, angolano descendente de mistura exacta da Coimbra branca com a Benguela mulata – a das todas planuras. Cabrito mesmo, de olho amarelado. Mas afinal todas as bonitezas eram só desvantagens e impotências perante os enfartes miocárdicos que se lhe acometeram, covardemente, quando bebia um sucedâneo de caporroto. Sabemos agora.
Foi lá naquele descaracterístico Ribatejo que tudo se passou – disseram-me os choros do telefone: Mido Zé tinha tomado todas nessa véspera, e até tinha falado para a mulher na hora do deitar:
-Mulher!, parece que alguém me chama de muito longe: ouço vozes gritando aqui no peito, como que berrando o meu nome, numa aflição muito estranha que também me aflige...
-Dorme, querido!, isso é normal quando bebes demais! – embalou-o em sossegos e costumeiros carinhos.
Mas jingongo Mido sabia que não eram bem assim as coisas. Nessa hora certamente que se lembrou de todas as estórias que os mais velhos sempre falavam sobre os irmãos jingongos:
Sofrimento de um é tortura no outro! Na exacta mesma hora!
Todavia, nessa noite, nem as sábias certezas dos mais velhos chegaram para o desacordar:
Mido Zé deixou-se embarcar no chamamento longínquo de Zé Mido, e não voltou mais. Ainda.
Antes porém tivera tempo de gravar a fogo de lábios um longo beijo na face do seu Junior adormecido, como que para se eternizar. Mas foi tudo o que lhe restou das nenhumas forças restantes.
No dia seguinte tocaram-se os discretos sinos por sua curta vida, longe de casa, e nem mesmo os amigos de sangue como eu lá estavam para partilhar tanta solidão...
Porém, a esta hora – óbitos cumpridos – já o imagino outra vez bicicletando em disputas acrobáticas com o seu jingongo irmão no ex-Largo Serpa Pinto, não antes de me terem assobiado na varanda irrecusáveis convites de infância feliz...
Aiué!, meus irmãos jingongos!
Há dias, passado que estava o tempo para o esquecimento, e também após eu ter bebido todas, pareceu-me ouvir, vindo do quintal, um fiu-fi-quiu, fiu-fi-quiu muito familiar...
Levantei-me da cama, trôpego bêbado e berrei para o quintal, furibundo:
- Ó jingongos, seus fidasputas! – não me chamem agora que tenho meu neto para cuidar!
E os jingongos Emídios, meus irmãos até depois de todo o nada - suas eternidades -, deixaram de mais me assobiar.
Ai ué, meus irmãos jingongos…!