Assim como o pior do amor é quando acaba, também o pior da vida é quando começa, a sério, a ser vida. isto seja, uma dura luta pela sobrevivência num intenso combate contra todas as adversidades.
E se, em verdade, em sobrevivência já estamos quase todos - os que pensam a vida sem disfarces nenhuns neste emaranhado confuso e liberal -, então que fazer, como ser, sendo, já que somos poetas, por exemplo...?
E o que pensar, já que somos todos sonhadores idealistas, também por exemplo...?
Ou, por exemplo ainda, como agir, já que somos todos adeptos de soluções caóticas...?
Venha de lá o diabo e escolha, por mim, por nós, como às vezes, por exemplo.
Desenhado assim o cenário burguês da crise, passemos à realidade:
Era uma vez uma camponesa. E enquanto a camponesa campeava, a chuva e o granizo fodiam-lhe o todo campear.
Aí chegou o estado e disse: pagarás a distracção do teu tanto campear!
E a camponesa não pagou - pois não podia;
E o estado não cobrou - pois em verdade também não existia.
Logo chegou a dura realidade e estipulou:
Fiquemos assim: tu, camponesa e fodida, eu, Estado nenhum!
E assim estamos, fora das estatísticas, só para que constemos em algum lugar.
Entretanto as filas de esfomeados nas traseiras da Câmara Municipal do Porto recebendo um misericordioso jantar;
Entretanto o vizinho que pede uma cebola de empréstimo, um kilo de arroz... só porque se esqueceu de comprar.
Pois!
Era uma vez um povo que nunca foi povo. Aí chegou o polvo - com seus tentáculos - e transformou esse povo em pó, e, sem que ninguém desse conta, foi o apodrecendo, polvilhando-o com pó mostarda, com pó de talco, sacudindo e encaminhando-o até umas urnas eleitorais, bens cheirosas e tóxicas.
Aí, então, na mais certeira das horas, perguntou o nome a todos e todos responderam: povo!, nós somos o povo!
Então o polvo. liberalmente e vezes oito, tantos quantos os seus todos tentáculos, decidiu:
Foderei todos, já que todos são apenas um!
E assim se iniciou o secular e tranquilo sono dos poderosos.
Brecht disse-o, há décadas, e eu só o relembro, agoramesmo!
